Peterson Azevedo


SERES DE LUZ – O OLUBAJÉ

“A fotografia é um fenômeno que ocupa lugar central na cultura contemporânea. Desde 1839, da sua criação até os dias de hoje, a arte fotográfica vem ganhando espaço na maneira de construirmos uma narrativa de mundo própria e identitária. Antes, vista apenas como elemento documental de registro da realidade.” (SONTAG, 1933)

 

Diz uma lenda que Xangô, um Rei muito vaidoso, deu uma grande festa em seu palácio e convidou todos os Orixás, menos Obaluaiyê, pois as suas características de pobre e de doente assustavam o rei do trovão. No meio do grande cerimonial todos os outros Orixás começaram a notar a falta do Orixá Rei da Terra e começaram a indagar o porquê da sua ausência, até que um deles descobriu de que ele não havia sido convidado. Todos se revoltaram e abandonaram a festa indo a casa de Obaluaiyê pedir desculpas, Obaluaiyê recusava-se a perdoar aquela ofensa até que chegou a um acordo; daria uma vez por ano uma festa em que todos os Orixás seriam reverenciados e este ofereceria comida a todos desde que Xangô comesse aos seus pés e ele aos pés de Xangô. Nascia assim a cerimónia do Olubajé. Porém, existem diversas outras lendas que narram outros motivos sobre o porquê de Xangô e Ogum não se manifestarem no Olubajé.

Este ensaio é uma reverência simbólica a esta festa, a festa em homenagem a Omolú o orixá da cura, da saúde, o poder da terra. Foram três dias imerso neste universo, no terreiroIlê Axé Oyá Tolá, localizado na passagem dos Teixeira, no município de Candeias – BA.

Este trabalho tinha como objetivo inicial, realizar a fotografia still do filme documentário ‘Igi Obá Nile – Memórias de Mãe Raidalva’, dirigido pela N5 Filmes em nome do seu diretor Chico Soares e Diosmar Filho, idealizado por meio da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi). Mas ao descortinar essa cultura fui pego pela magnitude do evento e tentei registrar por meio da imagem como eram iluminados estes seres, em sua concentração e transe na confecção e dedicação a festa. O antropólogo Marlon Marcos, 2010 nos conta que Mãe Raidalva nasceu no Rio de Janeiro e foi criada no bairro do Engenho Velho de Brotas, em Salvador, sendo iniciada no candomblé pelo babalorixá Raimundo da Cruz, em seu terreiro, Ilê Axé Babá Olufandey, no bairro de Pernambués, na capital baiana. Raidalva contribui para a luta do povo de terreiro, população negra e mulheres negras com base na fé nos orixás, além de realizar trabalhos sociais na sua comunidade. Este ensaio se torna em sua essência, um compêndio imagético e memorial, sobre o Olubajé, e mais precisamente sobre o cotidiano vivo nos três dias que antecedem o rito!

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