Irving Penn

Irving Penn revolucionou um sem-número de gêneros fotográficos; no entanto, o campo da fotografia de moda é um daqueles em que sua marca foi impressa de forma mais profunda. De fato, é difícil imaginar o que seria da foto de moda contemporânea sem a seminal influência da estética de Penn – criador de uma beleza elegante e simples, mas construída com um rígido formalismo e uma sensibilidade incomum.Quando Penn chegou à Vogue, ainda na década de 1940, estranhou o sofisticado ambiente que ali havia encontrado. Não conhecia os cânones e normas com as quais tão subitamente havia se deparado; pra completar, havia sido contratado por Alexander Liberman para dar idéias para capas da revista, mas os fotógrafos simplesmente ignoravam suas recomendações. Não havia outra escolha, a não ser fazer as coisas ele mesmo: Penn pegou a câmera e realizou, por conta própria, suas idéias. Uma feliz decisão: a imagem que levou para Liberman foi a primeira das mais de cem capas da Vogue criadas a partir de suas fotografias.Esta atitude “do it yourself”, mescla de inconformismo e uma criatividade sem barreiras, guiou Irving Penn pelos mais distintos caminhos, dos quais jamais escapou devido a seus incontáveis questionamentos. Seu equipamento mudou inúmeras vezes; tecnicamente, tornou-se um virtuoso, utilizando diferentes câmeras para diferentes trabalhos conforme suas necessidades estéticas. Realizou, em 1949, uma notável série de nus com grandes mulheres – à la Rubens ou Renoir – que, se na época causou estranhamento até em Edward Steichen, outro dos grandes mestres da fotografia do século XX, foi aos poucos sendo reconhecida como uma obra de valor artístico indiscutível.É esta versatilidade – ou genialidade – o que coloca em maus lençóis tantos críticos que escrevem sobre Penn. Embora suas fotos de moda assemelhem-se àquelas criadas pelos olhares aristocráticos de pioneiros como De Meyer ou Huene, dificilmente seria possível encerrá-lo sob a máscara da sofisticação quando o próprio Penn reconhece que chegou à Vogue como uma espécie de selvagem entre uma refinada elite; embora seu formalismo vá contra muitos dos experimentalismos de vanguarda, seus stills com referências ao memento mori – a arte que, lidando com objetos podres ou putrefatos, relembra ao homem sua finitude – colocam em questão a própria idéia de vanguarda; embora seu cultivo da pose remeta à foto de moda das décadas de 20 e 30, seu minimalismo e despojamento inserem-no claramente na contemporaneidade que ele mesmo ajudou a criar.As imagens de Penn tipicamente abandonam fundos e efeitos elaborados em nome de uma imagem simples e expressiva, de notável concentração nos modelos ou acessórios fotografados. Penn optou, desde o princípio, por suprimir os elaborados cenários, usando fundos simples e explorando diferentes poses – ou seja: conscientemente optando pelo essencial, o que foi suficiente para um percurso no qual desenvolveu verdadeiras obras-primas. Eis, mais uma vez, a reafirmação de que, na fotografia, o fator determinante é o próprio olhar do fotógrafo – que, no caso de Penn, está na gênese de uma estética inovadora por seu rigor e por sua sensibilidade rara.O lugar de Irving Penn é, afinal, singular. Idealmente atemporal, já por seu propósito de atravessar os séculos de história da pintura e da moda em uma trajetória essencial; inclassificável, por sua própria relutância em seguir qualquer trilha sem submetê-la aos mais radicais questionamentos, a obra de Penn representa um lugar único em meio aos mundos da fotografia.
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Por HENRIQUE MARQUES-SAMŸN
colunista do site Moda Almanaque
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