Nan Goldin

THE BALLAD OF SEXUAL DEPENDENCY é o diário que pode ser lido por todos. Meus diários escritos são pessoais. Eles formam um documento do meu mundo e me permite uma analise deste, a distância. Meu diário visual é publico, ele se desenvolve da sua base subjetiva com a contribuição de outras pessoas. Estas fotos podem ser um convite para o meu mundo, mas foram feitas para que eu pudesse ver as pessoas nelas. As vezes não sei o que sinto por alguém até fotografa-la. Não seleciono as pessoas para fotografa-las; fotografo direto da minha vida. São fotos feitas a partir de relações e não de observações. As pessoas em minhas fotos dizem que minha câmera é (uma parte de mim tanto quanto qualquer outra característica minha). É como se minhas mãos fossem a câmera. (Se fosse possível não teria nenhum mecanismo entre eu e o momento de fotografar). É parte de minha vida tanto quanto falar, comer ou sexo. Para mim o instante de fotografar é um momento de clareza e ligação emocional e não de distância. Existe uma noção popular de que o fotografo é um observador por natureza, o ultimo a ser convidado para a festa. Mas não a estou invadindo, é minha família, minha historia.

Meu desejo é preservar o sentido de vida das pessoas para dota-las do poder e da beleza que vejo nelas. (Eu quero que elas se vejam nas fotos). Quero mostrar exatamente com o que o meu mundo se parece, sem glamour e sem glorificação. Este não é um mundo frio, mas sim com uma consciência de dor, uma qualidade de introspecção. Todos contamos estórias que são versões de (historia memorizada, resumidas, repetitivas e seguras). Memória real, mostrada nestas fotos, é uma evocação de cor, cheiro, som e presença física, a densidade e o sabor da vida. A memória permite um fluxo interminável de associações mentais. Estórias podem ser reescritas, a memória não. Se cada foto é uma estória, a acumulação delas se aproxima da experiência da memória, uma estória sem fim. Quero experimentar intensamente e sem restrições. As pessoas obcecadas em lembrar suas experiências se impõem uma disciplina rígida. Eu quero e não quero ser controlado ao mesmo tempo. O diário é a minha forma de controlar minha vida. Ele me permite registrar todos os detalhes obsessivamente. Me capacita a lembrar.

Esta é a historia de uma família recriada, sem os papeis tradicionais. Quando criança meu livro favorito era Richard Hughes’s A High Wind in Jamaica, onde um grupo de crianças são separadas dos pais e levadas por piratas. Os pais estão constantemente preocupados com os filhos, (imaginando quanto eles estão sentindo sua falta). As crianças na verdade , dificilmente pensão neles. Eles se adaptam imediatamente à nova realidade, e são pegos na aventura das suas próprias experiências. Na minha família de amigos existe um desejo pela proximidade de uma família de sangue, mas também um desejo por algo mais aberto. Os papeis não são bem definidos. Estas são relações de longa duração. As pessoas vão e vem mas sempre mantêm uma relação próxima. Somos ligados não por sangue ou lugar, mas por uma moralidade similar, uma necessidade de viver intensamente o momento, uma descrença no futuro, um respeito similar por honestidade, uma necessidade de expandir limites e uma historia comum. Vivemos sem consideração mas com consideração. Entre nós existe uma habilidade de escutar e simpatizar que ultrapassa a definição moral de amizade. As pessoas e locais em minhas fotos são únicas, especificas, mas acho que estou lidando com algo universal. Muitas pessoas tentam negar isto dizendo: “Não nos parecemos com os objetos destas fotos, eles não são sobre nós. Mas a premissa pode ser aplicada a todos. Ela é sobre a natureza das relações.

Eu sempre temo que homens e mulheres são irrevogavelmente estranhos uns em relação aos outros, irreconciliavelmente inadequados, quase como se fossem de planetas diferentes.Mas existe uma necessidade intensa de acasalamento, apesar de tudo isso. Mesmo que as relações sejam destrutivas, as pessoas se juntam. È uma relação bioquímica, estimula a parte do cérebro que só é satisfeita com o amor, heroína, ou chocolate. Amor pode ser um vício. Tenho um estranho desejo de ser independente, mas ao mesmo tempo uma ânsia pela intensidade que vem da interdependência. A tensão que isto cria parece ser um problema universal: a luta entre autonomia e dependência. The Ballad of Sexual Dependency começa e termina com essa premissa. Das primeiras series de casais, incluindo o Duque e a Duquesa de Windsor – o modelo do ideal romântico – desintegrando-se no museu de cera da ilha de Coney, até a foto de esqueletos juntos num abraço eterno, depois de terem sido vaporizados. No meio disso estou tentando entender o que faz a união de casais, tão difícil.

Tenho visto como a mitologia do romance contradiz a realidade da união de casais e perpetua uma definição de amor que cria expectativas perigosas. Esta mitologia não permite uma bivalência que é natural em qualquer relação sustentável. O atrito entre as fantasias e as realidades das relações pode levar à separação ou violência. Se homens e mulheres sempre parecem inadequados um para o outro, talvez seja porque eles têm realidades emocionais diferentes e falam línguas emocionais diferentes. Por muitos anos achei difícil entender os sistemas de sentimentos dos homens e não acreditava que eles eram vulneráveis e os capacitei de forma que não reconhecia seus medos e sentimentos. Os homens carregam sua própria bagagem, um legado baseado em um medo das mulheres, uma necessidade de categoriza-las, por exemplo, como mães, prostitutas, virgens, ou mulheres-aranha. (A construção da função do gênero) é um dos maiores problemas que os indivíduos levam para uma relação.

Quando crianças, somos programados conforme as limitações da distinção de gênero: garotos para serem brigões, garotas para serem bonitas e simpáticas. Mas à medida que crescemos, temos uma consciência que vê gênero como uma decisão, como algo maleável. Você pode brincar com as opções tradicionais – se arrumar, dirigir, fazer pose de durão – ou brincar com o inverso dos papeis, mostrando sua candura ou dureza para contradizer os estereótipos. Nos meus quinze anos o mundo perfeito parecia um lugar de total androgenia, onde não se saberia o gênero de uma pessoa até ir para cama com ele ou ela. Desde então percebi que gênero é mais profundo que estilo. Mais que aceitar uma distinção de gênero, o ponto é, redefini-lo. Alem de brincar com os clichê, tem a decisão de viver as alternativas, até mesmo trocar o sexo, o que para mim é o ato estremo de autonomia. As mulheres mostradas juntas em The Ballad oferecem um senso de solidariedade, quase uma força Amazonense junto à uma ternura profunda, abertamente amável sem inconsciente. O macho solitário é mostrado em sua delicadeza e sensualidade vulneráveis. Mas quando juntos se tornam másculos. Existe uma situação de jogo competitivo, erótico, mostrada através de lutas, bebedeira, provando a suas habilidades de suportar a dor.

O que você conhece emocionalmente e o que almeja sexualmente pode ser bastante contraditório. Normalmente me sinto melhor com uma mulher. Minhas amizades duradouras com mulheres são ligações que têm a intensidade de um casamento ou a proximidade de irmãs. Mas uma parte de mim é desafiada pela opacidade da maquiagem emocional do homens e é estimulada pelo conflito próprio das relações entre homens e mulheres.

Sexo em si é apenas um aspecto da dependência sexual. Prazer se torna a motivação, mas a satisfação real é romântica. A cama se torna um fórum onde os conflitos de uma relação são abrandados ou intensificados. Sexo não é só desempenho, é um certo tipo de comunicação baseada em confiança exposição e vulnerabilidade que não pode ser expressado de nenhuma outra forma. Elos sexuais intensos tornam-se desgastante e auto-sustentável. Você se torna dependente de gratificação. Sexo torna-se um microcosmo da relação, o campo de batalha, um exorcismo. Por alguns anos, eu estive profundamente envolvida com um homem. Combinávamos bem emocionalmente e a relação tornou-se muito interdependente. O ciúme foi usado para inspirar paixão. Seu conceito de relações era enraizado no idealismo romântico de James Dean e Roy Orbison. Eu desejei a dependência, a adoração, a satisfação, a segurança, mas as vezes me sentia claustrofóbica. Éramos viciados na quantidade de amor que a relação fornecia. Éramos um casal. Entre nos as coisas começaram a dar errado, mas nenhum de nós conseguia dar um fim. O desejo era constantemente re-inspirado ao mesmo tempo que a insatisfação tornou-se inegável. Nossa obsessão sexual permaneceu um dos elos.

Uma noite, ele me bateu bastante, quase me cegando. Queimou meus diários. Mais tarde descobri que ele os tinha lido. Confrontar minha bivalência havia traído sua noção absoluta de romance. Seu conflito entre o desejo de independência e o vício (à ) relação tinha se tornado insuportável.

Eu tinha doze anos quando minha irmã cometeu suicídio. Isso foi em 1965, quando suicídio de adolescente era um tabu. Eu era muito próxima dela e consciente de alguns dos motivos que a levaram ao suicídio. Vi o papel da sua sexualidade, e a repressão deste ajudou na sua destruição. Por estarmos no começo dos anos sessenta, as mulheres que eram fortes e sexuais, amedrontavam e estavam fora dos limites aceitáveis de comportamento, fora de controle. Aos dezoito anos, ela viu que o única forma de se livrar da situação era deitar-se numa linha de trem fora de Washington. Foi um ato de muita determinação.

Na semana do velório que se seguiu, eu fui seduzida por um homem mais velho. Nesse período de grande dor e perda, eu despertei para uma intensa instigação sexual. Apesar do sentimento de culpa que tinha, eu estava obcecada pelo meu desejo. Minha consciência do poder da sexualidade foi definida por esses dois acontecimentos. Explorar e entender as mudanças desta força motiva minha vida e meu trabalho. Notei que me parecia com minha irmã em muitos aspectos. Vi a historia se repetir. Seu psiquiatra previu que eu iria terminar como ela. Fiquei com medo de morrer aos dezoito anos. Sabia que era necessário sair de casa, e o fiz aos quatorze anos. Desta forma fui capaz de mudar e me recriar sem me perder. Aos dezoito comecei a fotografar. Fiquei mais sociável e comecei a beber) e queria me lembrar dos detalhes do que aconteceu. Por anos acreditei estar obcecada pelos relatórios do dia a dia da minha vida. Mas recentemente percebi que minha motivação tinha raízes mais profundas. Não me lembro muito bem da minha irmã. No processo de deixar a minha família e me recriar, perdi a memória real da minha irmã. Lembro-me da minha versão dela, das coisas que ela dizia, do que significava para mim. Mas não lembro do senso real do que ela era, sua presença, como eram seus olhos, como era sua voz. Nunca quero ser sujeito à versão de ninguém, da minha historia. Nunca quero perder a memória real de ninguém novamente.

AINDA É MINHA FAMILIA. Dez anos se passaram desde que The Ballad foi publicado e não mais vejo o livro. Aquilo se foi, o agora é agora. Ainda guardo meus diários, os escritos e os fotografados. Eles cuidam do passado para mim, e me permitem viver apenas o presente. Eu fiz as fotos neste livro para que a nostalgia nunca pudesse colorir meu passado. Percebi que me fotografei espancada para não voltar para o homem que me bateu. Queria fazer um relatório da minha, que ninguém pudesse alterar, não uma versão cautelosa e limpa mas sim um relatório de como as coisas realmente pareciam. Mas fotografia não preserva memória tão eficientemente quanto pensei. Muitas pessoas no livro estão mortas agora, a maioria por causa da AIDS. Eu pensava que podia protelar perdas através da fotografia. Sempre achei que se fotografasse alguém ou algo suficientemente, nunca perderia a pessoa, nunca perderia a memória, nunca perderia o lugar. Mas elas me mostram o quanto perdi. A AIDS mudou tudo. As pessoas que acho que me conheciam melhor, quem me entendeu, as pessoas que participaram da minha historia, as pessoas com quem cresci e com as quais pretendia envelhecer, se foram. Nossa historia foi interrompida precocemente. Existe um sentido de perda de si mesmo, por causa da perda da comunidade. Mas existe também um sentimento de que a tribo ainda continua. A AIDS alterou nossas vidas em todos os aspectos. A noção de auto destruição como sendo glamoroso tornou-se auto tolerante quando as pessoas próximas começaram a morrer. Aquela visão romântica do artista auto destrutivo, tendo que sofrer ou induzir à dor para trabalhar, Aquela idéia de que criatividade tem que vir de crises eufóricas ou de excessos extremos, mudou. Com o advento da morte em nossas vidas veio um desejo real de sobreviver, e ajudar um ao outro a sobreviver, para se exibir um para o outro. No começo as drogas eram expansão, mas no final tornaram-se prisão. Na verdade consumi drogas para ter mais visão, mais clareza, para perder todas as inibições, para ser completamente espontâneo e arredio. Isso funcionou por um bom tempo. Mas é difícil manter isso por muitos anos. Quando cruzei a linha de uso para abuso, meu mundo ficou muito, muito sombrio – entre 1986 a 1988.

Em 1988, dois anos após The Ballad foi publicado pela primeira vez, Entrei numa clinica de desintoxicação de drogas e álcool. Levei uma copia de The Ballad comigo. A primeira coisa que as enfermeiras fizeram foi levar o livro dali, alegando que iria causar uso de drogas e sexo nos outros pacientes. Não tive permissão para ver meu trabalho ou ter a minha câmera comigo por dois meses. Estava impaciente. Pela primeira vez desde quando eu era adolescente não pude tirar fotos para me ajudar a entender e sobreviver à minha experiência. Acho que não ter minha câmera para me motivar se somou ao meu terror de vencer a abstinência. Mais tarde quando entrei na metade do caminho, no hospital, devolveram a minha câmera. Comecei uma serie de auto retratos, o que era útil na minha recuperação. Me fotografando diariamente, eu pude me reencontrar. Nesse período, também descobrir a Luz do dia. Nunca soube antes que fotografia tinha a ver com luz. Sempre tinha pensado que luz natural significava lâmpada vermelha da boates.

Este novo trabalho – minhas primeiras fotos sem drogas – foram fotos sobre a saída da escuridão para a luz, literalmente e metaforicamente. Foi o ponto de partida para todo o trabalho que fiz desde então. Agora minhas fotos são mais introspectivas, brandas, e não sobre comportamentos extremos, apesar de ainda existir a necessidade de ultrapassar limites. A energia nelas é diferente. São mais focadas e tem mais clareza. Existe escuridão e luz, e o meio termo. Fotografia tem sido uma redenção para mim. Tem me mantido viva, e me ajudou a fazer um gráfico da minha queda e reconstituição.

Continuo fotografando minha comunidade, inclusive muitas das pessoas do The Ballad: Bruce,Greer, Sharon, Vivianne e seu filho de nove anos… portanto existe também uma continuação através dos filhos. Minha família de amigos ainda é baseada na interdependência, continuidade, amor, e ternura. Não faço distinção emocional entre meus amigos e meus amantes. Não acredito que fotografia para o tempo. Ainda acredito que a fotografia é verdade, o que faz de mim um dinossauro nos dias atuais. Ainda acredito que fotos podem preservar a vida mais que acabar-la. As fotos em The Ballad não mudaram. Mas Cookie está morto, Kenny está morto, Mark está morto, Max está morto, Vittorio está morto. Para, portanto, o livro é agora um volume de perdas, e ao mesmo tempo, ainda, uma balada de amor.

Nan Goldin

 

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