Tiago Santana


Tiago Santana – o Brasil na coleção Photo Poche

RUBENS FERNANDES JUNIOR[20.jun.2011]

Recentemente, a emblemática coleção Photo Poche, criada e dirigida por Robert Delpire (editor do clássico Les Américans, de Robert Frank), tornou pública sua mais recente edição: Sertão, de Tiago Santana. Inserido na série Photo Poche Société, o livro traz 71 fotografias realizadas entre 1992 e 2006, com introdução do cubano Eduardo Manet, e sintetiza uma experiência visceral de um fotógrafo comprometido com sua região e sua gente.

Tiago Santana nasceu no Crato, região do Cariri, CE, e foi criado em Juazeiro do Norte. Vive em Fortaleza, educou-se na fé profunda de um povo resignado e crente, circulou pelo mundo (Califórnia, Paris, Rio de Janeiro e São Paulo) e fotografa intensamente toda essa vivência. Desde as primeiras aparições no mundo da fotografia, nas diferentes edições da Semana Nacional de Fotografia realizadas pelo InFoto – Instituto Nacional de Fotografia da Funarte –, vem surpreendendo positivamente todos aqueles que acompanham sua trajetória.

Susan Sontag, na introdução dos Ensaios sobre a fotografia, escreve que “o mais racional dos estetas do século XIX, Mallarmé, afirmava que tudo o que existe no mundo existe para terminar num livro. Hoje em dia, tudo o que existe, existe para terminar numa fotografia”. Vou ampliar um pouco mais: tudo o que existe, existe para terminar num livro de fotografia. Também quero lembrar o registro de Tolstói – “fale de sua aldeia e seja universal” – para enfatizar a importância desse livro que dignifica a fotografia brasileira, em particular a nova fotografia documental.

Tiago Santana que dedicou-se a fotografar seu povo e seu território, agora ganha o reconhecimento da coleção mais prestigiosa da fotografia mundial. Seu trabalho tem consistência, maturidade e adquire importância não só pela extensiva e persistente presença na região, mas principalmente porque propõe uma nova eficiência para a fotografia documental. Seu exercício vital de criação é captar sua experiência através do uso de lentes de foco longo, que geram enquadramentos aparentemente confusos e cortes desafiadores. Mas, essa provocação e esse desassossego fazem parte de sua estratégia de registrar apenas a natureza essencial desse espaço inóspito encravado em parte no estado do Ceará, denominado de polígono das secas.

Contemplar suas fotografias significa se deparar com situações aparentemente bizarras, nas quais somos instigados a buscar relações, estabelecer semelhanças e diferenças, enfim, tentar encontrar um fio condutor capaz de nos levar à decifração da mensagem. Mais ainda, o que Tiago elabora é uma sofisticada narrativa que busca enfatizar sua necessidade de documentar o cotidiano e a religiosidade do Sertão.

Já escrevi em outra ocasião que a fotografia de Tiago Santana é intuitiva, pulsante, porque ele organiza sua sintaxe a partir de uma predisposição de registrar o espontâneo e o imprevisível, considerando o meio apenas uma ferramenta para alavancar sua intenção. Suas imagens provocam no imaginário coletivo a consciência social dos fatos que representam, bem como enfatizam o compromisso político com sua gente.

Essa inquietação, associada ao seu procedimento combinatório, está relacionada com suas características visuais: preferência pelo uso do equipamento de pequeno formato e, para vencer sua timidez, impôs a si mesmo a experiência de olhar o mundo através da lente grande angular (sempre a 28 mm) que, paradoxalmente, lhe dá a possibilidade de estar próximo dos acontecimentos, sem interferências, e também de elaborar vários planos de ação simultânea. São esses planos em conexão que impõem um movimento ao olhar do espectador e desafiam a noção que temos de fotografia documental.

Esses registros em profundidade e essas composições assimétricas não pertencem à esfera da clássica fotografia documental, mas apontam para uma fotografia em que nada parece estar sob controle. Os personagens têm total liberdade de movimento e transitam pela imagem como se tivessem recebido estímulos para produzir gestos imprevistos. Essa é uma das principais marcas que caracterizam o trabalho de Tiago Santana.

Outra particularidade assumida nestas imagens é a utilização da “luz dura” do estado do Ceará como elemento de linguagem em busca de um resultado que faz emergir, de forma metalinguística, a dramaticidade do povo nordestino. O resultado impresso são cópias de contraste acentuado, que nos remetem, por semelhança tonal, às gravuras presentes nas capas dos livretos da literatura de cordel, que estão impregnadas no imaginário do artista.

O sonho de todo fotógrafo é ver seu trabalho registrado num livro, pois é ele quem vai garantir alguma longevidade para as imagens. No caso da publicação do ensaioSertão na coleção Photo Poche Société, Tiago é duplamente reconhecido: além de ampliar a discussão de um tema de enorme importância para nossa cultura visual, tem a garantia de que sua distribuição terá ressonância em escala global. É exatamente isso que Tolstoi insinuava, ou seja, o drama do cidadão que está ao nosso lado tem uma universalidade perfeitamente compreensível. Robert Delpire, ao se emocionar com as fotografias de Tiago Santana, teve plena consciência de que tamanha devoção popular certamente ajudaria os homens compreender melhor os seus semelhantes.

 

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